Indo direto ao ponto para quem não conhece: François Truffaut é um dos maiores e mais bem sucedidos diretores de cinema do século vinte. Um dos criadores da nouvelle vague, movimento francês de cinema que defendia a teoria autoral, onde o filme é considerado uma realização individual dependendo quase que exclusivamente de uma única pessoa - geralmente o diretor (proposta essa apresentada pelo próprio Truffaut, que elegeu como representante maior dessa teoria o diretor Alfred Hitchcock) - e também produções de baixo custo que tratavam de temas amorais para a sua geração e maracavam por enredos inesperados e originais, muitas vezes sem ligar para linearidade narrativa.
Rodado em 1959, este é o primeiro longa-metragem de Truffaut, com o título original de "Les 400 Coups", uma expressão francesa equivalente a "pintar o sete"; uma obra-prima autobiográfica feita com ajuda financeira do sogro de Truffaut na época que conta a história de Antoine Doinel, o primeiro trabalho do ator francês Jean-Pierre Léaud, com catorze anos na época e que mais tarde viria a estrelar outros sucessos como "Beijos Roubados", "O Último Tango em Paris" e "A Noite Americana". Relatando um período que o próprio diretor viveu entre o fim de sua infância e o início da sua juventude, o jovem e rebelde Antoine - personagem que ainda apareceria em muitos filmes de Truffaut, sempre interpretado por Léaud - enfrenta o desprezo de seus pais e a repressão autoritária de seus professores. Rebelde, forja uma amizade com René (Patrick Auffay) e começa a faltar aulas, fugir de casa para ir ao cinema e cometer pequenos delitos.
Com o desenrolar da história, vamos sentindo cada vez mais na pele toda a angústia sentida pelo personagem. Toda a vontade de gritar e ser reprimido por uma sociedade que não ouve os seus problemas, apenas o obriga a abaixar a cabeça e obedecer as ordens das instituições julgadas sagradas pela sociedade. Como Antoine Doinel não se enquadra em nenhuma delas, é enviado para reformatórios juvenis, afastado cada vez mais dos injustos pilares erguidos pela civilização, pois afinal, tais reformatórios nada ajudam apesar do seu desígnio original. A única alternativa que resta a Doinel é fugir. Fugir desse mundo separado por barreiras sólidas e incomunicáveis, onde ninguém ouvirá seus gritos. O final é sensível, silencioso e vago. Quando se é diferente, não há nenhum lugar para correr. Resta apenas o vazio. Uma cena incompreendida no começo, mas que pouco tempo depois faz todo o sentido do mundo. Refletindo nossa própria condição de estar tão imerso no meio social, que a compreensão do natural torna-se simplesmente impossível. E segundo tanto a arte produzida pelo homem denuncia, parece ser a própria condição humana nesses amargos tempos.

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