Feios, Sujos e Malvados
28 outubro 2007 | billy shears | 003
Falando em cinema, a versatilidade italiana é uma das mais interessantes já surgidas na história da sétima arte. Desde a arte sobre o vazio e a incomunicabilidade sempre presente nos filmes de Michelangelo Antonioni, até os filmes crus e viscerais dos cineastas do neo-realismo italiano, passando pelas obsessões sexuais de Bernardo Bertolucci, a poesia mágica e crítica de Federico Fellini, entre outros. Entre esses muitos outros, é claro, está o grande Ettore Scola, responsável pela chocante obra "Feios, Sujos e Malvados".

Esqueça os Monty Python. Esqueça Monicelli e seu exército de Brancaleone. Esqueça "Quanto Mais Quente Melhor". Se você quer realmente conhecer a comédia mais subversiva de todos os tempos, este é o filme. Em "Feios, Sujos e Malvados" as vísceras de uma sociedade podre e decadente estão mais expostas do que nunca: seus personagens figuram entre os mais imorais já concebidos pela cabeça de um cineasta, capazes dos atos mais desumanos em nome de um único bem comum: o dinheiro.

Os países sul-americanos são mais conhecidos na hora de produções artísticas sobre a miséria e a injustiça social. Mas desde filmes como "Ladrões de Bicicleta" e "Roma, Cidade Aberta", os italianos demonstraram inegável talento na hora de demonstrar um lado da sociedade que poucos são interessados em ver. E o filme em questão é um dos ápices quando se fala no assunto. Residindo em uma favela italiana, Nino Manfredi nos entrega de bandeja uma de suas melhores atuações, o fanfarrão patriarca Giacinto Mazzatella, um homem ganancioso e avarento que sustenta a família contra a sua vontade com o dinheiro de sua aposentadoria forçada, conseguida após a perda da visão de um olho. Família composta por uma velha alienada que passa o dia inteiro assistindo televisão e que só é mantida viva para que a família possa receber usufruir de sua aposentadoria, uma esposa interesseira e histérica, e uma galeria de filhos e filhas, cunhados e cunhadas capazes de fazer qualquer coisa para se dar bem na vida - os travestis, trambiqueiros, tarados e moças oferecidas que compõem a família são mostrados sem eiras nem beiras.

Adepto da teoria determinista, ou seja, que o homem é fruto direto do meio, o filme demonstra a verdadeira luta pela sobrevivência que é sub-viver em um meio onde as pessoas não aprenderam nada sobre valores morais e que incentiva o egoísmo como a única saída para continuar vivo. Do levemente engraçado ao humor negro mais chocante, o filme não poupa ninguém em absolutamente nenhuma cena. A falta de assistência do governo e as vias em que as pessoas se desdobram recusando-se a sucumbir são mostradas de forma forte, bizarra e até mesmo nojenta em certas cenas. Enquanto o filme caminha, é difícil crer que o ser humano possa chegar em níveis tão baixos.

A situação só piora quando Giacinto resolve levar a amante para morar em sua casa na cara dura. O que era estranho, bizarro e chocante até então transforma-se em surreal, inacreditável e inconcebível - incêndios, envenenamentos, atropelamentos, vendas de terreno sem aviso prévio atingem olhos e ouvidos sem a mínima preocupação se as pessoas irão sentir-se bem assistindo. O final, então, é o que você menos pode esperar. Se é que dá para traçar alguma linha clichê nesse filme.

"Feios, Sujos e Malvados" é um daqueles filmes como poucos, que mostrou ao mundo que Ettore Scola definitivamente não é um cineasta que se encontra todo dia. Indispensável em todos os sentidos e genial no que se propõe, essa é uma película que realmente merece ser assistida. Mais de trinta anos depois, ainda soa subversivo e chocante a quem assiste, um atestado de atemporalidade que só as grandes obras são donas.

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Os Incompreendidos
05 outubro 2007 | billy shears | 004
Indo direto ao ponto para quem não conhece: François Truffaut é um dos maiores e mais bem sucedidos diretores de cinema do século vinte. Um dos criadores da nouvelle vague, movimento francês de cinema que defendia a teoria autoral, onde o filme é considerado uma realização individual dependendo quase que exclusivamente de uma única pessoa - geralmente o diretor (proposta essa apresentada pelo próprio Truffaut, que elegeu como representante maior dessa teoria o diretor Alfred Hitchcock) - e também produções de baixo custo que tratavam de temas amorais para a sua geração e maracavam por enredos inesperados e originais, muitas vezes sem ligar para linearidade narrativa.

Incoformados com os sucessos do cinema francês na época e fãs do film noir americano, Truffaut e seus companheiros e também críticos de filmes da revista "Cahiers du cinéma" como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Alan Resnais, Jacques Rivette, Eric Rohmer e Roger Vadim nos deram pérolas como "Acossado" e Alphaville" de Godard; "Hiroshima Meu Amor" de Resnais; "Nas Garras do Vício" de Chabrol; "A Religiosa" de Rivette; "O Signo do Leão" de Rohmer; "E Deus Criou A Mulher" de Vadim; e as obras máximas de François: "Jules e Jim" e principalmente "Os Incompreendidos".

Rodado em 1959, este é o primeiro longa-metragem de Truffaut, com o título original de "Les 400 Coups", uma expressão francesa equivalente a "pintar o sete"; uma obra-prima autobiográfica feita com ajuda financeira do sogro de Truffaut na época que conta a história de Antoine Doinel, o primeiro trabalho do ator francês Jean-Pierre Léaud, com catorze anos na época e que mais tarde viria a estrelar outros sucessos como "Beijos Roubados", "O Último Tango em Paris" e "A Noite Americana". Relatando um período que o próprio diretor viveu entre o fim de sua infância e o início da sua juventude, o jovem e rebelde Antoine - personagem que ainda apareceria em muitos filmes de Truffaut, sempre interpretado por Léaud - enfrenta o desprezo de seus pais e a repressão autoritária de seus professores. Rebelde, forja uma amizade com René (Patrick Auffay) e começa a faltar aulas, fugir de casa para ir ao cinema e cometer pequenos delitos.

Com o desenrolar da história, vamos sentindo cada vez mais na pele toda a angústia sentida pelo personagem. Toda a vontade de gritar e ser reprimido por uma sociedade que não ouve os seus problemas, apenas o obriga a abaixar a cabeça e obedecer as ordens das instituições julgadas sagradas pela sociedade. Como Antoine Doinel não se enquadra em nenhuma delas, é enviado para reformatórios juvenis, afastado cada vez mais dos injustos pilares erguidos pela civilização, pois afinal, tais reformatórios nada ajudam apesar do seu desígnio original. A única alternativa que resta a Doinel é fugir. Fugir desse mundo separado por barreiras sólidas e incomunicáveis, onde ninguém ouvirá seus gritos. O final é sensível, silencioso e vago. Quando se é diferente, não há nenhum lugar para correr. Resta apenas o vazio. Uma cena incompreendida no começo, mas que pouco tempo depois faz todo o sentido do mundo. Refletindo nossa própria condição de estar tão imerso no meio social, que a compreensão do natural torna-se simplesmente impossível. E segundo tanto a arte produzida pelo homem denuncia, parece ser a própria condição humana nesses amargos tempos.

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cenário
sinopse
homenageando os filmes que arnaldo jabor odeia, MOONVIEHATTAN é uma sensível produção estrelando bernardo (oscar de melhor argumento em "dangerous music") e nara (oscar de melhor fotografia em "redecouverte"), somada a direção dinâmica das próprias estrelas. ber era um indie que passava os dias baixando bootlegs dos pixies até que encontrou nara, que tinha o live da banda em toronto. tal troca singela revelará uma amizade verdadeira em uma obra tão singela quanto.

"uma BOSTA!!!"
- Folha de São Paulo
ângulos
  • estréia: 13 de julho de 2007
  • remake: 1.0 ~ BLOW UP! desde 13 de julho de 2007
  • cinéfilos: #


  • © moonviehattan07
    direitos reservados
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    elenco
    bernardo
    cinéfilo desde que assistiu laranja mecânica e desde então empobrece a família com visitas semanais à locadora.
    nara
    cinéfila desde que começou a trabalhar numa locadora e assistia filmes de graça. já saiu de lá faz tempo e agora contrabandeia dvds com o pai.

    filmografia
    estréia
  • julho 2007
  • agosto 2007
  • outubro 2007
  • novembro 2007
  • dezembro 2007
  • título
  • Pulp Fiction
  • O Mundo de Andy
  • Feios, Sujos e Malvados
  • Os Incompreendidos
  • Dr. Fantástico
  • Manhattan
  • catálogo
    código

    em cartaz
    takes
    cinemark roxy cinemateca sp adoro cinema cinema com rapadura