Falando em cinema, a versatilidade italiana é uma das mais interessantes já surgidas na história da sétima arte. Desde a arte sobre o vazio e a incomunicabilidade sempre presente nos filmes de Michelangelo Antonioni, até os filmes crus e viscerais dos cineastas do neo-realismo italiano, passando pelas obsessões sexuais de Bernardo Bertolucci, a poesia mágica e crítica de Federico Fellini, entre outros. Entre esses muitos outros, é claro, está o grande Ettore Scola, responsável pela chocante obra "Feios, Sujos e Malvados".Esqueça os Monty Python. Esqueça Monicelli e seu exército de Brancaleone. Esqueça "Quanto Mais Quente Melhor". Se você quer realmente conhecer a comédia mais subversiva de todos os tempos, este é o filme. Em "Feios, Sujos e Malvados" as vísceras de uma sociedade podre e decadente estão mais expostas do que nunca: seus personagens figuram entre os mais imorais já concebidos pela cabeça de um cineasta, capazes dos atos mais desumanos em nome de um único bem comum: o dinheiro.
Os países sul-americanos são mais conhecidos na hora de produções artísticas sobre a miséria e a injustiça social. Mas desde filmes como "Ladrões de Bicicleta" e "Roma, Cidade Aberta", os italianos demonstraram inegável talento na hora de demonstrar um lado da sociedade que poucos são interessados em ver. E o filme em questão é um dos ápices quando se fala no assunto. Residindo em uma favela italiana, Nino Manfredi nos entrega de bandeja uma de suas melhores atuações, o fanfarrão patriarca Giacinto Mazzatella, um homem ganancioso e avarento que sustenta a família contra a sua vontade com o dinheiro de sua aposentadoria forçada, conseguida após a perda da visão de um olho. Família composta por uma velha alienada que passa o dia inteiro assistindo televisão e que só é mantida viva para que a família possa receber usufruir de sua aposentadoria, uma esposa interesseira e histérica, e uma galeria de filhos e filhas, cunhados e cunhadas capazes de fazer qualquer coisa para se dar bem na vida - os travestis, trambiqueiros, tarados e moças oferecidas que compõem a família são mostrados sem eiras nem beiras.Adepto da teoria determinista, ou seja, que o homem é fruto direto do meio, o filme demonstra a verdadeira luta pela sobrevivência que é sub-viver em um meio onde as pessoas não aprenderam nada sobre valores morais e que incentiva o egoísmo como a única saída para continuar vivo. Do levemente engraçado ao humor negro mais chocante, o filme não poupa ninguém em absolutamente nenhuma cena. A falta de assistência do governo e as vias em que as pessoas se desdobram recusando-se a sucumbir são mostradas de forma forte, bizarra e até mesmo nojenta em certas cenas. Enquanto o filme caminha, é difícil crer que o ser humano possa chegar em níveis tão baixos.
A situação só piora quando Giacinto resolve levar a amante para morar em sua casa na cara dura. O que era estranho, bizarro e chocante até então transforma-se em surreal, inacreditável e inconcebível - incêndios, envenenamentos, atropelamentos, vendas de terreno sem aviso prévio atingem olhos e ouvidos sem a mínima preocupação se as pessoas irão sentir-se bem assistindo. O final, então, é o que você menos pode esperar. Se é que dá para traçar alguma linha clichê nesse filme."Feios, Sujos e Malvados" é um daqueles filmes como poucos, que mostrou ao mundo que Ettore Scola definitivamente não é um cineasta que se encontra todo dia. Indispensável em todos os sentidos e genial no que se propõe, essa é uma película que realmente merece ser assistida. Mais de trinta anos depois, ainda soa subversivo e chocante a quem assiste, um atestado de atemporalidade que só as grandes obras são donas.
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