
O que separa a genialidade da insanidade? Uma linha tênue? Ou nada? Até onde alguém pode ir quando está disposto a provar algo? Quem aceitaria arriscar e praticamente jogar no lixo uma carreira de sucesso garantido na determinação de quebrar barreiras?
Senhoras e senhores: Andy Kaufman.
Primeiro, o homem. Vindo de Nova Iorque e construindo rapidamente uma fama estrondosa de humorista no seriado "Taxi" e participando do programa "Saturday Night Live", Andy aproveitou a condição de nova celebridade para começar a provocar o público. Dono das vontades de ousar e esculhambar, atraiu grande antipatia do público americano em geral ao começar a tomar atitudes como ler longos romances para platéias que esperavam ver um show de humor, ofendendo o sexo feminino e desafiando mulheres profissionais de luta-livre, inventava histórias para a mídia americana, criava identidades ficctícias como o cantor Tony Clifton... O humor americano nunca mais foi o mesmo depois de Kaufman. Era algo totalmente além do humor e da ficção. Era tudo muito real, um tapa na cara, e na região mais sensível do rosto. Faleceu em 1984 de câncer de intestino, fato este que nem a mídia e o público deram crédito ou veracidade.
Segundo, o filme e seus envolvidos. Em 1996, Milos Forman começou a pesquisar a vida do controverso ícone. O envolvimento do cineasta de naturalidade checa e naturalizado americano com figuras polêmicas não é de hoje - em todos os seus clássicos, sempre vemos a luta de homens contra instituições que não podiam combater. Os hippies cantavam, dançavam e viajavam para ofender os burgueses em "Hair", Jack Nicholson sentiu na pele o ambiente claustrofóbico que é um hospício em "Um Estranho No Ninho", Larry Flint e sua Hustler combateram incansavelmente a direita protestante e pagaram caro por isso em "O Povo Contra Larry Flint" e o medíocre músico Salieri contra um império e a religião em "Amadeus'. Ou seja, era como se o legado de Kaufman e a carreira de cineasta de Milos Forman tivessem sido feitos para se chocarem algum dia - E daí surgir outra bomba. Jim Carrey já era um ator famosíssimo na época, mas poucos acreditavam em sua capacidade fora de um papel que fosse engraçado, bizarro ou esquisito - tal qual um novo Peter Sellers ou Jerry Lewis da década de noventa, o americano teve o mundo humorístico da década em suas mãos em películas como "O Máskara", "Debi e Lóide", "Ace Ventura", "O Pentelho" e "O Mentiroso". Mas as impressões sobre Jim começaram a mudar quando aceitou interpretar o ingênuo e televisionado desde criança Truman Burbank no filme "O Show de Truman", em 1998. Forte, intenso e envolvente, uma história sobre descoberta e busca por liberdade, foi uma bomba em matéria de público e crítica.
E no ano seguinte, Jim Carrey confirmaria que "O Show de Truman" não era apenas um acerto na mosca por acaso. Escolhido para interpretar Andy Kaufman e acompanhado da rockstar Courtney Love (que já havia trabalhado com Milos três anos antes em "O Povo Contra Larry Flint") como a companheira de Andy, Lynne Margulies e Paul Giamatti como o amigo George Saphiro, Carrey não decepcionou absolutamente em nenhuma cena. O ator se envolveu tanto com o personagem e de forma tão marcante que fica difícil que saiam da cabeça cenas como as provocações públicas realizadas por Andy, as fracassadas lutas contra o câncer, o clima pesado entre Andy, Lynne e George que intensifica cada vez mais. Carrey entrou tanto no personagem que mesmo quando não estava gravando pedia para ser chamado de Andy Kaufman. Quando a verdadeira Lynne Margulies foi visitar o set de filmagens, ficou chocada e extremamente emocionada na perfeição atingida na interpretação.

A trilha sonora e o roteiro são outros capítulo a serem destacados. Com várias canções compostas pelo próprio Kaufman, transmitindo autenticidade nessa cinebiografia, e com a cereja do bolo sendo "Man On The Moon", nome original do filme e que se tornou um clássico da banda de rock alternativo R.E.M. Uma canção emocionada que critica a mídia americana, dizendo que a mídia nos faz acreditar em tudo, tudo mesmo. Característica midiática essa que Andy usou e abusou. O roteiro conflituoso tenta se aproximar o máximo possível da atribulada vida do artista, com base em entrevistas de amigos, familiares e até inimigos de Kaufman.
Paradoxalmente engraçado, dramático e desafiador, assim como o artista que o inspirou, o filme nos ajuda a mergulhar de cabeça na vida deste que foi um dos artistas mais importantes da história contemporânea. Um dos que mais aproximou arte de realidade, que testou nossos preconceitos até o limite, que desmistificou a hipocrisia, que desafiou a opinião pública na maior cara de pau e sem medo de amargar no ostracismo. Caótica feito a sua arte, a vida de Andy é um exemplo de crença nos próprios ideais. A maioria consideraria que exemplo seria abandonar suas próprias idéias e se submeter a máquina, até atingir uma velhice conformada. Mas Andy Kaufman era diferente. E o filme demonstra perfeitamente o por que dele não ter sido só mais uma figura no show business, a causa de Milos Forman não ser só mais um diretor na história do cinema norte-americano e a razão de Jim Carrey ser um dos atores mais bem conceituados da atualidade.
"If you believed they put a man on the moon, man on the moon... If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool..."
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