Quem conhece, sabe: "Pulp Fiction" é ícone de toda uma geração. Este filme e o Nirvana estão para a década de 90 como "Juventude Transviada" e Elvis Presley estão para os anos 1950. A própria síntese da década está toda lá: a violência, as drogas, o imediatismo, o humor negro a cultura pop transbordando em músicas, diálogos e costumes e a reverência à antigos ídolos e mestres.Verdadeira esponja cinéfila, o diretor Quentin Tarantino é fã ardoroso de cineastas como Jean-Luc Godard e Martin Scorsese e tiete de filmes orientais, de terror e de faroeste. E acredite, todas essas influências resplandecem em seu trabalho. A história de linearidade embaralhada porém nunca confusa, os personagens de moral baixa, os diálogos marcantes e contundentes, as referências cult, a trilha sonora embalada por vários clássicos a violência ora chocante, ora engraçada, ora banal - tudo está ali, trabalhando a seu favor.
E "Pulp Fiction" representa o momento em que o diretor pega emprestada a pistola de um de seus personagens e acerta na mosca. Todas as características citadas acima estão mais presentes do que nunca em um filme que, ainda que longo, não perde o ritmo em nenhum momento. As enrascadas de alto grau em que seus personagens se metem sempre levam a desfechos inacreditáveis.
Somos apresentados a personagens variadíssimos: Samuel L. Jackson e John Travolta estão perfeitos como os gângsters Jules Winnfield e Vincent Vega, uma dupla imoral, pavio-curto e com uma cultura tão profunda quanto um pires, chegados mais a falar sobre seriados, MC Donalds e massagem nos pés do que sobre filosofia, literatura ou sentimentos. Há também o casal Wallace, Marcellus e Mia. O primeiro, um ameaçador chefe da máfia, figura que normalmente nos impõe tanto respeito que Quentin Tarantino assim que pode profana sua imagem respeitosa. Sua esposa, interpretada por Uma Thurman, é uma atriz frustrada e viciada em cocaína de atitudes fanfarronas e hedonistas. Há também Bruce Willis como o grosseirão Butch, um boxeador às voltas com o crime organizado e que valoriza o relógio que ganhou de seu pai morto na guerra mais até que sua namorada. O casal Pumpkin e Honey Bunny, dois assaltantes palermas que só pensam em mudar de vida. O desajuste, a idiotia, a vida sem grandes motivações: anos 90, sem dúvida alguma...Apesar de tudo, pode acreditar: é no fracasso do sonho americano e na noção que os anos de ouro passaram e nós não estamos vivendo neles em que "Pulp Fiction" encontra sua força. O próprio nome, fazendo alusão à histórias policiais baratas feitas para pessoas de baixo senso crítico. Contos estes que nunca serão as grandes hitórias policiais de todos os tempos. Assim como Quentin Tarantino sabe que nunca vai ser Martin Scorsese, temos a plena noção que Vincent e Mia dançando jamais serão Chaplin e seu globo ou Fred Astaire e Ginger Rogers; os assaltos de Pumpkin e Honney Bunny nunca serão os de Bonnie e Clyde; Jules e as humilhações que impõe a outros nunca serão as de Dirty Harry; Butch, que nunca saiu do chão em que sempre esteve caído, nunca será uma estrela cadente como Jake La Motta de "Touro Indomável". Daí a identificação imediata. Eles são completamente humanos, completamente banais, eles se vestem como o ramo pede, eles nunca irão além, e sempre estão procurando uma muleta para se apoiar.

A trilha sonora? Tudo o que os conservadores odiariam. Rock And Roll e Soul Music em excesso, Chuck Berry, Dick Dale, Urge Overkill, Al Green, Kool and The Gang, Dusty Springfield, entre outros. Nada de erudito, complexo e coisa e tal. Tudo música pop no talo. Tradução perfeita dos filmes de Tarantino: essa interface conceitual em que somos mergulhados, a do crime organizado, sintetiza por si só o cotidiano de muitos jovens na época, nada poético, lírico ou de proporções Shakespereanas: tudo rápido, medíocre e raivoso. A raiva de não viver nos golden years ora erguem-se em tiroteios feitos não por vingança, mas por negócios, pura e simplesmente, ora na sodomização de figuras que nos filmes de Francis Ford Coppola e Brian de Palma não ousaríamos citar o nome.
É certo que Sergio Leone e Martin Scorsese já criavam personagens imorais, mas todos eles tinham uma aspiração nobre - por mais distorcida que fosse a nobreza, seus personagens achavam que seria uma ação redentora. Este não é o caso do Tarantino. Seus personagens não querem limpar as ruas, não querem vingar a morte de entes queridos, o que eles mais querem é se esbaldar na mediocridade de um mundo que já perdeu sua beleza e não procura amparar seus novos filhos. O que resta, então, aos novos filhos fazer? Chutar o balde. E foi o que Tarantino fez ao reciclar tudo o que a cultura ocidental fez até hoje em um parábola pop original e impiedosa em que sobra sangue, pó e miolos para todo lado. Tão suave quanto um soco na cara.
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