Pulp Fiction

25 dezembro 2007 |

billy shears |

Quem conhece, sabe: "
Pulp Fiction" é ícone de toda uma geração. Este filme e o Nirvana estão para a década de 90 como "
Juventude Transviada" e Elvis Presley estão para os anos 1950. A própria síntese da década está toda lá: a violência, as drogas, o imediatismo, o humor negro a cultura pop transbordando em músicas, diálogos e costumes e a reverência à antigos ídolos e mestres.
Verdadeira esponja cinéfila, o diretor Quentin Tarantino é fã ardoroso de cineastas como Jean-Luc Godard e Martin Scorsese e tiete de filmes orientais, de terror e de faroeste. E acredite, todas essas influências resplandecem em seu trabalho. A história de linearidade embaralhada porém nunca confusa, os personagens de moral baixa, os diálogos marcantes e contundentes, as referências cult, a trilha sonora embalada por vários clássicos a violência ora chocante, ora engraçada, ora banal - tudo está ali, trabalhando a seu favor.
E "
Pulp Fiction" representa o momento em que o diretor pega emprestada a pistola de um de seus personagens e acerta na mosca. Todas as características citadas acima estão mais presentes do que nunca em um filme que, ainda que longo, não perde o ritmo em nenhum momento. As enrascadas de alto grau em que seus personagens se metem sempre levam a desfechos inacreditáveis.

Somos apresentados a personagens variadíssimos: Samuel L. Jackson e John Travolta estão perfeitos como os gângsters Jules Winnfield e Vincent Vega, uma dupla imoral, pavio-curto e com uma cultura tão profunda quanto um pires, chegados mais a falar sobre seriados, MC Donalds e massagem nos pés do que sobre filosofia, literatura ou sentimentos. Há também o casal Wallace, Marcellus e Mia. O primeiro, um ameaçador chefe da máfia, figura que normalmente nos impõe tanto respeito que Quentin Tarantino assim que pode profana sua imagem respeitosa. Sua esposa, interpretada por Uma Thurman, é uma atriz frustrada e viciada em cocaína de atitudes fanfarronas e hedonistas. Há também Bruce Willis como o grosseirão Butch, um boxeador às voltas com o crime organizado e que valoriza o relógio que ganhou de seu pai morto na guerra mais até que sua namorada. O casal Pumpkin e Honey Bunny, dois assaltantes palermas que só pensam em mudar de vida. O desajuste, a idiotia, a vida sem grandes motivações: anos 90, sem dúvida alguma...
Apesar de tudo, pode acreditar: é no fracasso do sonho americano e na noção que os anos de ouro passaram e nós não estamos vivendo neles em que "
Pulp Fiction" encontra sua força. O próprio nome, fazendo alusão à histórias policiais baratas feitas para pessoas de baixo senso crítico. Contos estes que nunca serão as grandes hitórias policiais de todos os tempos. Assim como Quentin Tarantino sabe que nunca vai ser Martin Scorsese, temos a plena noção que Vincent e Mia dançando jamais serão Chaplin e seu globo ou Fred Astaire e Ginger Rogers; os assaltos de Pumpkin e Honney Bunny nunca serão os de Bonnie e Clyde; Jules e as humilhações que impõe a outros nunca serão as de Dirty Harry; Butch, que nunca saiu do chão em que sempre esteve caído, nunca será uma estrela cadente como Jake La Motta de "
Touro Indomável". Daí a identificação imediata. Eles são completamente humanos, completamente banais, eles se vestem como o ramo pede, eles nunca irão além, e sempre estão procurando uma muleta para se apoiar.

A trilha sonora? Tudo o que os conservadores odiariam. Rock And Roll e Soul Music em excesso, Chuck Berry, Dick Dale, Urge Overkill, Al Green, Kool and The Gang, Dusty Springfield, entre outros. Nada de erudito, complexo e coisa e tal. Tudo música pop no talo. Tradução perfeita dos filmes de Tarantino: essa interface conceitual em que somos mergulhados, a do crime organizado, sintetiza por si só o cotidiano de muitos jovens na época, nada poético, lírico ou de proporções Shakespereanas: tudo rápido, medíocre e raivoso. A raiva de não viver nos
golden years ora erguem-se em tiroteios feitos não por vingança, mas por negócios, pura e simplesmente, ora na sodomização de figuras que nos filmes de Francis Ford Coppola e Brian de Palma não ousaríamos citar o nome.
É certo que Sergio Leone e Martin Scorsese já criavam personagens imorais, mas todos eles tinham uma aspiração nobre - por mais distorcida que fosse a nobreza, seus personagens achavam que seria uma ação redentora. Este não é o caso do Tarantino. Seus personagens não querem limpar as ruas, não querem vingar a morte de entes queridos, o que eles mais querem é se esbaldar na mediocridade de um mundo que já perdeu sua beleza e não procura amparar seus novos filhos. O que resta, então, aos novos filhos fazer? Chutar o balde. E foi o que Tarantino fez ao reciclar tudo o que a cultura ocidental fez até hoje em um parábola pop original e impiedosa em que sobra sangue, pó e miolos para todo lado. Tão suave quanto um soco na cara.
Marcadores: Bruce Willis, Diretores - Quentin Tarantino, Harvey Keitel, John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Uma Thurman
O Mundo de Andy

11 novembro 2007 |

billy shears |

O que separa a genialidade da insanidade? Uma linha tênue? Ou nada? Até onde alguém pode ir quando está disposto a provar algo? Quem aceitaria arriscar e praticamente jogar no lixo uma carreira de sucesso garantido na determinação de quebrar barreiras?
Senhoras e senhores: Andy Kaufman.
Primeiro, o homem. Vindo de Nova Iorque e construindo rapidamente uma fama estrondosa de humorista no seriado "
Taxi" e participando do programa "
Saturday Night Live", Andy aproveitou a condição de nova celebridade para começar a provocar o público. Dono das vontades de ousar e esculhambar, atraiu grande antipatia do público americano em geral ao começar a tomar atitudes como ler longos romances para platéias que esperavam ver um show de humor, ofendendo o sexo feminino e desafiando mulheres profissionais de luta-livre, inventava histórias para a mídia americana, criava identidades ficctícias como o cantor Tony Clifton... O humor americano nunca mais foi o mesmo depois de Kaufman. Era algo totalmente além do humor e da ficção. Era tudo muito real, um tapa na cara, e na região mais sensível do rosto. Faleceu em 1984 de câncer de intestino, fato este que nem a mídia e o público deram crédito ou veracidade.

Segundo, o filme e seus envolvidos. Em 1996, Milos Forman começou a pesquisar a vida do controverso ícone. O envolvimento do cineasta de naturalidade checa e naturalizado americano com figuras polêmicas não é de hoje - em todos os seus clássicos, sempre vemos a luta de homens contra instituições que não podiam combater. Os hippies cantavam, dançavam e viajavam para ofender os burgueses em "
Hair", Jack Nicholson sentiu na pele o ambiente claustrofóbico que é um hospício em "
Um Estranho No Ninho", Larry Flint e sua Hustler combateram incansavelmente a direita protestante e pagaram caro por isso em "
O Povo Contra Larry Flint" e o medíocre músico Salieri contra um império e a religião em "
Amadeus'. Ou seja, era como se o legado de Kaufman e a carreira de cineasta de Milos Forman tivessem sido feitos para se chocarem algum dia - E daí surgir outra bomba.
Jim Carrey já era um ator famosíssimo na época, mas poucos acreditavam em sua capacidade fora de um papel que fosse engraçado, bizarro ou esquisito - tal qual um novo Peter Sellers ou Jerry Lewis da década de noventa, o americano teve o mundo humorístico da década em suas mãos em películas como "O Máskara", "Debi e Lóide", "Ace Ventura", "O Pentelho" e "O Mentiroso". Mas as impressões sobre Jim começaram a mudar quando aceitou interpretar o ingênuo e televisionado desde criança Truman Burbank no filme "O Show de Truman", em 1998. Forte, intenso e envolvente, uma história sobre descoberta e busca por liberdade, foi uma bomba em matéria de público e crítica.
E no ano seguinte, Jim Carrey confirmaria que "O Show de Truman" não era apenas um acerto na mosca por acaso. Escolhido para interpretar Andy Kaufman e acompanhado da rockstar Courtney Love (que já havia trabalhado com Milos três anos antes em "O Povo Contra Larry Flint") como a companheira de Andy, Lynne Margulies e Paul Giamatti como o amigo George Saphiro, Carrey não decepcionou absolutamente em nenhuma cena. O ator se envolveu tanto com o personagem e de forma tão marcante que fica difícil que saiam da cabeça cenas como as provocações públicas realizadas por Andy, as fracassadas lutas contra o câncer, o clima pesado entre Andy, Lynne e George que intensifica cada vez mais. Carrey entrou tanto no personagem que mesmo quando não estava gravando pedia para ser chamado de Andy Kaufman. Quando a verdadeira Lynne Margulies foi visitar o set de filmagens, ficou chocada e extremamente emocionada na perfeição atingida na interpretação.

A trilha sonora e o roteiro são outros capítulo a serem destacados. Com várias canções compostas pelo próprio Kaufman, transmitindo autenticidade nessa cinebiografia, e com a cereja do bolo sendo "Man On The Moon", nome original do filme e que se tornou um clássico da banda de rock alternativo R.E.M. Uma canção emocionada que critica a mídia americana, dizendo que a mídia nos faz acreditar em tudo, tudo mesmo. Característica midiática essa que Andy usou e abusou. O roteiro conflituoso tenta se aproximar o máximo possível da atribulada vida do artista, com base em entrevistas de amigos, familiares e até inimigos de Kaufman.
Paradoxalmente engraçado, dramático e desafiador, assim como o artista que o inspirou, o filme nos ajuda a mergulhar de cabeça na vida deste que foi um dos artistas mais importantes da história contemporânea. Um dos que mais aproximou arte de realidade, que testou nossos preconceitos até o limite, que desmistificou a hipocrisia, que desafiou a opinião pública na maior cara de pau e sem medo de amargar no ostracismo. Caótica feito a sua arte, a vida de Andy é um exemplo de crença nos próprios ideais. A maioria consideraria que exemplo seria abandonar suas próprias idéias e se submeter a máquina, até atingir uma velhice conformada. Mas Andy Kaufman era diferente. E o filme demonstra perfeitamente o por que dele não ter sido só mais uma figura no show business, a causa de Milos Forman não ser só mais um diretor na história do cinema norte-americano e a razão de Jim Carrey ser um dos atores mais bem conceituados da atualidade.
"If you believed they put a man on the moon, man on the moon... If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool..."
Marcadores: Diretores - Milos Forman, Jim Carrey
Feios, Sujos e Malvados

28 outubro 2007 |

billy shears |

Falando em cinema, a versatilidade italiana é uma das mais interessantes já surgidas na história da sétima arte. Desde a arte sobre o vazio e a incomunicabilidade sempre presente nos filmes de Michelangelo Antonioni, até os filmes crus e viscerais dos cineastas do neo-realismo italiano, passando pelas obsessões sexuais de Bernardo Bertolucci, a poesia mágica e crítica de Federico Fellini, entre outros. Entre esses muitos outros, é claro, está o grande Ettore Scola, responsável pela chocante obra "
Feios, Sujos e Malvados".
Esqueça os Monty Python. Esqueça Monicelli e seu exército de Brancaleone. Esqueça "
Quanto Mais Quente Melhor". Se você quer realmente conhecer a comédia mais subversiva de todos os tempos, este é o filme. Em "
Feios, Sujos e Malvados" as vísceras de uma sociedade podre e decadente estão mais expostas do que nunca: seus personagens figuram entre os mais imorais já concebidos pela cabeça de um cineasta, capazes dos atos mais desumanos em nome de um único bem comum: o dinheiro.

Os países sul-americanos são mais conhecidos na hora de produções artísticas sobre a miséria e a injustiça social. Mas desde filmes como "
Ladrões de Bicicleta" e "
Roma, Cidade Aberta", os italianos demonstraram inegável talento na hora de demonstrar um lado da sociedade que poucos são interessados em ver. E o filme em questão é um dos ápices quando se fala no assunto. Residindo em uma favela italiana, Nino Manfredi nos entrega de bandeja uma de suas melhores atuações, o fanfarrão patriarca Giacinto Mazzatella, um homem ganancioso e avarento que sustenta a família contra a sua vontade com o dinheiro de sua aposentadoria forçada, conseguida após a perda da visão de um olho. Família composta por uma velha alienada que passa o dia inteiro assistindo televisão e que só é mantida viva para que a família possa receber usufruir de sua aposentadoria, uma esposa interesseira e histérica, e uma galeria de filhos e filhas, cunhados e cunhadas capazes de fazer qualquer coisa para se dar bem na vida - os travestis, trambiqueiros, tarados e moças oferecidas que compõem a família são mostrados sem eiras nem beiras.
Adepto da teoria determinista, ou seja, que o homem é fruto direto do meio, o filme demonstra a verdadeira luta pela sobrevivência que é sub-viver em um meio onde as pessoas não aprenderam nada sobre valores morais e que incentiva o egoísmo como a única saída para continuar vivo. Do levemente engraçado ao humor negro mais chocante, o filme não poupa ninguém em absolutamente nenhuma cena. A falta de assistência do governo e as vias em que as pessoas se desdobram recusando-se a sucumbir são mostradas de forma forte, bizarra e até mesmo nojenta em certas cenas. Enquanto o filme caminha, é difícil crer que o ser humano possa chegar em níveis tão baixos.

A situação só piora quando Giacinto resolve levar a amante para morar em sua casa na cara dura. O que era estranho, bizarro e chocante até então transforma-se em surreal, inacreditável e inconcebível - incêndios, envenenamentos, atropelamentos, vendas de terreno sem aviso prévio atingem olhos e ouvidos sem a mínima preocupação se as pessoas irão sentir-se bem assistindo. O final, então, é o que você menos pode esperar. Se é que dá para traçar alguma linha clichê nesse filme.
"
Feios, Sujos e Malvados" é um daqueles filmes como poucos, que mostrou ao mundo que Ettore Scola definitivamente não é um cineasta que se encontra todo dia. Indispensável em todos os sentidos e genial no que se propõe, essa é uma película que realmente merece ser assistida. Mais de trinta anos depois, ainda soa subversivo e chocante a quem assiste, um atestado de atemporalidade que só as grandes obras são donas.
Marcadores: Diretores - Ettore Scola, Nino Manfredi
Os Incompreendidos

05 outubro 2007 |

billy shears |

Indo direto ao ponto para quem não conhece: François Truffaut é um dos maiores e mais bem sucedidos diretores de cinema do século vinte. Um dos criadores da nouvelle vague, movimento francês de cinema que defendia a teoria autoral, onde o filme é considerado uma realização individual dependendo quase que exclusivamente de uma única pessoa - geralmente o diretor (proposta essa apresentada pelo próprio Truffaut, que elegeu como representante maior dessa teoria o diretor Alfred Hitchcock) - e também produções de baixo custo que tratavam de temas amorais para a sua geração e maracavam por enredos inesperados e originais, muitas vezes sem ligar para linearidade narrativa.
Incoformados com os sucessos do cinema francês na época e fãs do film noir americano, Truffaut e seus companheiros e também críticos de filmes da revista "Cahiers du cinéma" como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Alan Resnais, Jacques Rivette, Eric Rohmer e Roger Vadim nos deram pérolas como "Acossado" e Alphaville" de Godard; "Hiroshima Meu Amor" de Resnais; "Nas Garras do Vício" de Chabrol; "A Religiosa" de Rivette; "O Signo do Leão" de Rohmer; "E Deus Criou A Mulher" de Vadim; e as obras máximas de François: "Jules e Jim" e principalmente "Os Incompreendidos".

Rodado em 1959, este é o primeiro longa-metragem de Truffaut, com o título original de "Les 400 Coups", uma expressão francesa equivalente a "pintar o sete"; uma obra-prima autobiográfica feita com ajuda financeira do sogro de Truffaut na época que conta a história de Antoine Doinel, o primeiro trabalho do ator francês Jean-Pierre Léaud, com catorze anos na época e que mais tarde viria a estrelar outros sucessos como "Beijos Roubados", "O Último Tango em Paris" e "A Noite Americana". Relatando um período que o próprio diretor viveu entre o fim de sua infância e o início da sua juventude, o jovem e rebelde Antoine - personagem que ainda apareceria em muitos filmes de Truffaut, sempre interpretado por Léaud - enfrenta o desprezo de seus pais e a repressão autoritária de seus professores. Rebelde, forja uma amizade com René (Patrick Auffay) e começa a faltar aulas, fugir de casa para ir ao cinema e cometer pequenos delitos.
Com o desenrolar da história, vamos sentindo cada vez mais na pele toda a angústia sentida pelo personagem. Toda a vontade de gritar e ser reprimido por uma sociedade que não ouve os seus problemas, apenas o obriga a abaixar a cabeça e obedecer as ordens das instituições julgadas sagradas pela sociedade. Como Antoine Doinel não se enquadra em nenhuma delas, é enviado para reformatórios juvenis, afastado cada vez mais dos injustos pilares erguidos pela civilização, pois afinal, tais reformatórios nada ajudam apesar do seu desígnio original. A única alternativa que resta a Doinel é fugir. Fugir desse mundo separado por barreiras sólidas e incomunicáveis, onde ninguém ouvirá seus gritos. O final é sensível, silencioso e vago. Quando se é diferente, não há nenhum lugar para correr. Resta apenas o vazio. Uma cena incompreendida no começo, mas que pouco tempo depois faz todo o sentido do mundo. Refletindo nossa própria condição de estar tão imerso no meio social, que a compreensão do natural torna-se simplesmente impossível. E segundo tanto a arte produzida pelo homem denuncia, parece ser a própria condição humana nesses amargos tempos.

Marcadores: Diretores - François Truffaut, Jean Pierre Leaud
Dr. Fantástico

20 agosto 2007 |

billy shears |

"ou: Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba"
Após o término da segunda Guerra Mundial, o mundo foi bipartido. De um lado, os Estados Unidos surgiram como a maior potência do mundo capitalista; do outro, a União Soviética como líder suprema e incontestável do lado vermelho do mundo. Por muitos anos, até a queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo, o mundo viveu sob a ameaça de ser consumido por uma fogueira nuclear ao mínimo deslize de qualquer governante. As duas potências vertiam países em capitalistas e comunistas para dificultar o lado do outro inimigo - a China ficava mais vermelha sob o governo de Mao Tse Tung, um pequeno país de nome Cuba, vizinho aos Estados Unidos, tornava-se comunista, o Japão crescia como potencia capitalista e ditaduras militares eram implantadas nos governos latinoamericanos.
Mesmo com o nervosismo diário desses dias, onde qualquer coisa poderia acabar em pé de guerra, a arte não deixou de expressar seus sentimento sobre esse momento crítico da história do mundo. Primeiro, em 1958, o ex-soldado Peter George escreveu um grande suspense sobre esse período chamado de Guerra Fria, chamado "Alerta Vermelho".
Seis anos mais tarde, um diretor de nome Stanley Kubrick, já com certo reconhecimento por dirigir a adaptação cinematográfica de "Lolita", a obra-prima do escritor Vladimir Nabokov, "Glória Feita de Sangue", um dos mais angustiantes e reveladores filmes sobre a guerra e dirigido a cinebiografia de "Spartacus", comprou os direitos do livro para que pudesse adaptá-lo ao cinema. Para o elenco, pelo menos três estrelas: George C. Scott (que ainda brilharia com "Patton - Rebelde ou Herói?"), Sterling Hayden ("O Segredo das Jóias", "Johnny Guitar", "O Grande Golpe") e, principalmente, Peter Sellers, que já havia brilhado em pérolas como "Lolita" e "A Pantera Cor de Rosa" e ainda brilharia com o engraçadíssimo "Um Convidado Bem Trapalhão" e o comovente "Muito Além do Jardim".
Porém, enquanto escrevia o roteiro, Kubrick percebeu que, entre toda aquela tensão que imperava no livro de George, havia detalhes bizarros demais para deixar passar em branco. Assim, gradualmente, o roteiro acabou como uma comédia - uma das cinco melhores de todos os tempos.

A história toda começa quando o insano e durão General Jack D. Ripper (interpretado por Sterling) falha sexualmente com uma mulher na cama e o mesmo atribui sua impotência aos comunistas, acusando-os de poluir a água ingerida pelos americanos com líquidos prejudiciais. Enfurecido por ter seus "preciosos fluidos" contaminados pelos vermelhos, ele ordena a vígilia constante da sua unidade, pondo os soldados em estado de alerta, e enviando uma frota de aviões para bombardear a Rússia. Isso põe os Estados Unidos em emergência máxima, levando o presidente americano Merkin Muffley (interpretado por Sellers) a ativar a sala de guerra com todos os seus generais, e ligando no famoso telefone vermelho para um cônsul soviético de nome Dimitri que está extremamente embrigado no momento da ligação.
Enquanto o presidente, o General Buck Turgidson (interpretado por George C. Scott) e o embaixador russo Alexi de Sadesky discutem inutilmente por pequenas burocracias, a tropa enviada pelo General Jack se aproxima cada vez mais da União Soviética. Enquanto isso, na base de Jack, o mesmo fica em pé de guerra com um inimigo ameaçador que nunca aparece, tendo que ser tranquilizado pelo Capitão inglês Lionel Mandrake (Sellers novamente).
O terceiro papel de Peter Sellers aparece na pele de Dr. Fantástico, um ex-oficial nazista, e se nos outros ele já interpretava com excelência, esse caricato personagem quase que atinge a perfeição, sentado em uma cadeira de rodas e não conseguindo controlar a própria mão, que insiste em levantar o braço como se ainda saudasse Hitler, indicando que o nazismo ainda não havia perecido com o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele aparece quando nada mais tem solução e então sugere organizações de sobrevivência pós-explosão das bombas atômicas. Facistamente, arma um esquema em que apenas os mais fortes e saudáveis prevaleceriam. E para o choque do espectador, o presidente acata o esquema achando-o genial.
Essa trama ao mesmo tempo absurda e cruelmente realista (como todas as guerras paradoxalmente são) constitui uma comédia totalmente diferente de todas as outras. Humor negro e político puro, provando que Kubrick era capaz de ser um cineasta diferente em qualquer gênero em que adotasse. As cenas finais são apoteóticas, onde tudo explode ironicamente ao som da canção "We'll Meet Again", cantada pela britânica Vera Lynn. Um dos filmes mais perfeitos e originais já produzidos, com um diretor e um ator principal únicos na história do cinema. Tremendamente essencial em todos os sentidos.

"YAAAAHOOO, DOOMSDAY MACHINE!!!"
Marcadores: Diretores - Stanley Kubrick, Peter Sellers
Manhattan

13 julho 2007 |

billy shears |

Woody Allen é uma das provas vivas da teoria Marxista (não a do Karl, mas a do Groucho) de que sem angústia, não há comédia. Sua filmografia é uma prova viva disso: somos postos cara a cara com personagens neuróticos, frustrados e insatisfeitos com suas vidas, profissões e relacionamentos. Certa vez, um vendedor de uma loja me disse que era até assustador ver "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" porque o personagem principal, interpretado pelo próprio, era totalmente feito à imagem e semelhança do autor. Minha resposta foi que o mais assustador ainda é que mesmo sendo tão parecidos com o autor, os personagens de Woody Allen são anti-heróis cem por cento humanos, cheios de paranóias e dramas o suficiente para que nos identifiquemos com eles. E assim como Allen, adoramos fazer piada da nossa própria desgraça...
Definitivamente um de seus melhores filmes, "Manhattan", feito em 1979, é um belo exemplo de tudo explicado acima. Filmado em preto e branco, Woody nos entrega um tragicômico romance onde interpreta Isaac Davis, um escritor divorciado que se vê em maus lençóis quando sua ex-esposa (Meryl Streep) resolve tornar-se lésbica e publicar um livro sobre a vida dos dois. Enquanto isso, está namorando Tracy (Mariel Hemingway), uma jovem de 17 anos, que corresponde a paixão por ele. No entanto, começa a sentir-se atraído por Mary Wilker (Diane Keaton), amante do seu melhor amigo, uma mulher mais madura e que no início tinha uma relação hostil com Isaac.
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Seria um típico filme do Woody Allen caso não fosse totalmente atípico. Os dramas das vidas dos personagens centrais são explanados com inteligentes diálogos; a indignação de Tracy por Isaac sempre a tratar como ingênua e pueril demais; a indecisão de Mary; e Isaac no meio do turbilhão, com milhões de complexas decisões a tomar e incerto em todas elas. O filme oferece uma bela visão da cidade de Manhattan, com toda sua efervescência populacional, suas belas paisagens urbanas, tudo com a nostálgica elegância cinzenta da direção de arte e o roteiro estupendo do diretor. Sem contar o belo final, sugerindo que nunca é tarde para a redenção, nunca é tarde para ouvir o coração, e principalmente que nunca é tarde para ter um pouco mais de fé nas pessoas ao redor. Se assistí-lo vai mudar sua vida ou não, só depende de você.
"Manhattan não é apenas um grande filme, é o tipo de filme que você gostaria de ter feito. Não, irei mais longe: Manhattan faz você desejar que você fosse uma pessoa melhor."
(Neil LaBute)
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